Partiu-se o cordão de prata

5. Nós estaremos caminhando para o nosso último descanso; e, quando isso acontecer, haverá gente chorando por nossa causa nas ruas. 6. A vida vai se acabar como uma lamparina de ouro cai e quebra, quando a sua corrente de prata se arrebenta, ou como um pote de barro se despedaça quando a corda do poço se parte. 7. Então o nosso corpo voltará para o pó da terra, de onde veio, e a o nosso espírito voltará para Deus, que o deu.
8. É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão.
(Eclesiastes 12.6-8, NLH)
A coisa mais certa da vida é a morte. Desde que nascemos caminhamos para a sua direção como trens vão para o seu destino sobre trilhos que os conduzem. Somos por ela atraídos como qualquer tipo de massa quando se aproxima de um buraco negro. Ela é inevitável e, todas as pessoas sabem disso. O problema é que tão quanto seja inevitável tanto é indesejável. Ninguém quer morrer e, nem mesmo conviver com a morte de alguém próximo. Ela nos choca, nos faz chorar, nos traz tristeza, interrompe o amor, a alegria o curso do existir.
Recentemente perdi um colega de trabalho, um conhecido da família, um artista que admirava, um esportista  símbolo de uma geração de vencedores. Como é cruel essa tal de morte. Não escolhe tipos, não tem preferência, não vê beleza, inteligência ou idade. Leva a todos sem misericórdia nem cerimônia. Com ela não tem diálogo nem argumento; sua dialética é monocrática, sua prática… é incansável; seu descanso é descansar aos outros que mesmo sem se sentirem cansados são obrigados, por ela, jazerem na paz aparente do silêncio frio e gélido daquilo que chamamos sepultura.
De todos os golpes que essa carrasca insensível me desferiu há um que deixou uma cicatriz que nenhuma cirurgia plástica pode fechar. Um golpe que contraria o curso natural do rio da bios que a zoe sabe que tem de enfrentar, mas que a psiquê deseja que não exista. Entretanto só quem tem um pneuma reforçado pelo Logus pode superar.
Nasceu como todos os bebês nascem; chorou como todos os nenéns choram; alegrou-nos como todos os que vêm à vida nos alegram. Mas se foi como nunca queremos que se vão. Nos deixou para ascender ao nível dos que, revestidos de inocência, reinam. Menos de 3 dias habitou entre nós, mas suficiente foi para nos marcar para sempre, ao ponto que sua sua congênere caçula que mais tarde supriu sua ausência dela fala como se podesse sentir, ou se em breve lhe fosse encontrar pra matar a saudade de quem jamais conheceu, mas a alma se lhe apegou como se gêmeas univitelinas fossem.
Crueldade senhora morte! Antes tivesse levado o pecador que a gerou. Antes tivesse arrastado o pai imerecedor, que permanece nesse mundo sem nada dele ter, nem pretende levar, mas que como um castigo tem que conviver com a saudade da princesa que um dia viu nascer, tomou nos braços, embalou, beijou, mas, teve que se despedir, na certeza de que no além a terá novamente nos seus braços quem a amou no plano do tempo que não tem planos. Apenas corre despretensioso, sem rumo, sem sabe onde vai chegar, no entanto sabe, que sendo lá o cá, vai… sim vai… chegar.
Um princesa se foi como nos contos de fada quando se acaba o conto, mesmo que naquele ponto houve-se o jargão, mais batido que que o tic tac do contador, não de contos, mas de pontos que chamamos cronos, “e viveram felizes para sempre”. Frase ilógica, sem nexo nem explicação. Aqui não se vive para sempre; aqui não se é feliz para sempre; aqui, nem mesmo, existe o sempre. Esse sempre não é daqui, ao contrário, para viver o sempre necessário é paradoxalmente daqui sair.
O que se sabe da morte é que depois dessa sorte para os que encontraram o norte e se refugiaram no Forte há um pórtico, não isento de como se comporte, que conduz o consorte para o caminho da Luz que não se apaga, não se finda, mas se torna a mais pura, a mais linda, do mundo e, ainda mais profundo, do universo e, ainda mais imerso, do tempo e além do tempo, além do aqui, além do agora, além do após.. o KAIRÓS.
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