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Freud, a Pós-modernidade e a Baleia Azul

É claro que eu não poderia deixar de escrever sobre o assunto mais comentado das mídias e redes sociais dessas últimas semanas. Uma torrente de informações de todo tipo, sendo a maioria delas duvidosas, como sempre. E quase nenhuma delas comprovadas e, muito menos, com citação das fontes. É um alarde falso ou uma realidade criminosa que entra na vida de tantas famílias de uma forma tão facilitada pelas redes sociais? Não quero me ater ao funcionamento do jogo Baleia Azul, pois isso com certeza já saturou nos meios de comunicações. Vou tão somente refletir sobre a vulnerabilidade humana e, principalmente das crianças, dos adolescentes e jovens, principais vítimas das doenças psíquicas da modernidade líquida e, da pós-modernidade.

No artigo “Luto e melancolia” evidencia-se a tentativa de Freud de alcançar as diversas esferas das emoções no âmbito psicanalítico. Trata de forma analítica o modo como o ser humano lida com a morte de seus entes antes e após a sua ocorrência. Resume pragmaticamente a diferença entre o luto normal e a melancolia (ou depressão) que, envolvida de componente libidinal, na sua expressão mais intensa, pode afetar o instinto de viver de suas vítimas. Apesar da abordagem psíquica sobre a melancolia Freud admite a disposição patológica aos pacientes que não conseguem passar pelo estado de luto de maneira natural.

O que ocorre atualmente que tem levado tantas pessoas a tirarem as suas próprias vidas, o suicídio? Ainda não se tem levantamentos científicos exatos para a justificativas de tais atitudes, até porque, os que assim fizeram não são mais capazes de relatar seus conflitos. O que podemos analisar dessas pessoas é apenas o que aqueles que viveram próximo delas previamente ao autocídio podem nos relatar. Assim, a análise dos fatos será superficial e baseada em relatos perceptíveis que, nem sempre, corresponderão à realidade psíquica que as vítimas viviam.

No dizer de Freud a melancolia (como era chamada a depressão em seu tempo), normalmente surgia de um luto mal concluído. Todos passam por esse tipo de perda, a de um ente querido, mas alguns acabam tendo muita dificuldade para superar esse luto, principalmente se for fora da normalidade, como a perda de um filho, por exemplo.  Uma análise geral da novas gerações de seres humanos que chegam à terra nos revela basicamente que elas estão sofrendo de um luto de grandes perdas. Vou sugerir algumas:

1 – Perda da Identidade: nossos jovens estão buscando o enquadramento em grupos cada vez mais distantes da realidade. As tribos da pós-modernidade são tão descoladas que flutuam no espaço e no tempo sem se apegar a nada. Estão como numa bolha uterina sem cordão umbilical. Se deslocam para todos os lados sem saber para onde vão e quando deverão chegar. É muita instabilidade para quem está em busca de identificação pessoal;

2 – Perda de referência familiar: cresci ouvindo dizer que os filhos, em geral, seguem os passos dos pais. Que os pais não deveriam dizer: “Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”. Isto foi uma realidade contundente nas décadas de 80 e 90, mas não é a de agora. Primeiramente por que os pais atuais não estão conseguindo ser referência, de espécie nenhuma, para seus filhos. Nem mesmo conseguem orientá-los “mandando”. E normalmente transferem a responsabilidade de ensinar para escola e, de corrigir, para a Justiça;

3 – Perda da referência meta-psicológica: a modernidade introduziu o ateísmo nas sociedades. Porém a falta de crer em uma transcendentalidade retira do ser humano sua expectativa de sublimação do sentido supranatural da vida. Esse modo de pensamento reavivou o epicurismo que justifica a busca do prazer (que alguns chamam de felicidade) como a motivação da vida natural, pois a esfera metafísica é uma incógnita. “Por que trocar o certo pelo duvidoso?” e “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos.”;

4 – Perda da referência transcendental: a transcendentalidade sempre esteve no centro da vida social do homem. Todas as sociedades se formaram a partir de uma crença em seres e sistemas espirituais de estruturação da vida. Dessa forma as sociedades tiveram suas origens em pontos referenciais imutáveis. Ninguém, nem mesmo o rei soberano, pode mudar o que Deus disse. Por outro lado, esse mesmo Deus promete guarida e amparo a todos os que lhe devotarem fidelidade. Assim a fé tornou-se um alicerce individual e a falta dela criou uma base movediça anti-referencial.

5 – Perda da referência inclusiva: segundo a psicanálise o ser humano nasce essencialmente narcisista. Somente após o início se seu desenvolvimento ele começa e entender o mundo e ver que a subjetividade está correlacionada com a objetividade. Assim, somente os que têm um relacionamento saudável com os objetos de seu amor e de seu desejo poderão sentir-se pertencentes ao seu meio social. Então, os indivíduos que não se sentirem incluídos nas sociedade em que estão circunscritos perderão o sentido de viver. Por que viver num ambiente em que não se é aceito, ou pelo menos, em que não se sente assim?

Essas questões fazem parte da elaboração do indivíduo para se tornar um ser humano socialmente formado. A falta dessas referências podem descalçar os alicerces da formação da pessoa humana. Um indivíduo que enfrenta tantas preocupações a participa de tantas questões conflitantes precocemente terá muitas dificuldades de viver neste munto. O sentimento de não dar conta das questões da vida pode conduzir o ser psiquicamente imaturo para um desejo de autoeliminação.

As solução, com certeza, não é nada fácil. Segundo os pressupostos da Psicanálise, como sempre,  passa pela expressão dos sentimentos, pela fala, pela externação das emoções. Para tanto é preciso que haja quem ouça, quem escute, que se atente para as questões dos pequenos seres que estão em formação. O psiquismo não pode ser negligenciado em crianças, adolescente e jovens. Eles são pessoas em formação e, precisam ser ouvidos. As famílias não têm conseguido ouvi-los, as escolas também não, até mesmo as igrejas, que tanto bem social produz através de seus projetos sociais, educacionais e terapêuticos, não têm conseguido ouvi-los.

Quantas baleias azuis serão necessárias para que escutemos nossos filhos? Que seja este cetáceo o motivador para que paremos, ouçamos e escutemos nossas crianças. Que seja este canal o retorno aos firmes marcos das referências pessoais no oceano instável da vida onde, além de baleias azuis, também existem tubarões, Lulas gigantes, peixes venenosos, etc. Neste oceano, não devem ser as baleias ou qualquer outro monstro que ditem as regras, mas a segurança dos navios de famílias e pais inabaláveis que abraçam e protegem seus tripulantes e passageiros incontestavelmente.

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A Psicologia na instituição hospitalar

Olá pessoal! Estou publicando uma entrevista que o CRP-SP fez com o escritor Valdemar Agusto Agerami porque achei um assunto muito importante. Ele fala da origem de seu trabalho junta a hospitais, dando assistência a suicidas. Desculpem pelo nome escrito errado no texto, mas foi erro do próprio e, como é uma re-publicação, não quis mudar o texto. Boa leitura a todos

Entrevista: Waldemar Augusto Angerami (Camon)

Um dos participantes de uma equipe de trabalho que criou um modelo de atendimento em hospitais a pessoas que haviam tentado o suicídio, o psicólogo conta de sua experiência profissional e defende que a questão do suicídio transcende a mera abordagem orgânica e precisa ser tratada a partir de uma compreensão profunda do desespero humano.

Waldemar Augusto Angerami, ou Camon, como é mais conhecido nos meios psi, é um campeão de publicações. Iniciou sua vida profissional como membro de uma equipe de trabalho que prestava atendimento a pessoas que haviam tentado suicídio. Desde cedo, no entanto, preocupou-se em registrar experiências e socializar seu aprendizado, seja na psicologia hospitalar, seja na psicoterapia existencialista, o que acabou lhe valendo o reconhecimento como um dos precursores do trabalho de psicólogo em hospitais. Ele, no entanto, relativiza isso. “Eu sou tido como pioneiro, mas não dá para comparar se fizermos um contraponto com a professora Mathilde Neder. Ela sim é uma pioneira. Quando começou no hospital eu tinha dois anos de idade. O que eu fiz foi publicar muito.” Com 14 livros publicados, Camon realizou trabalhos em vários hospitais e desenvolveu projeto com a Prefeitura de São Paulo para atendimento a pessoas que tentavam suicídio no metrô. Nessa entrevista ao Jornal do CRP, ele contou de sua trajetória profissional, falou sobre o trabalho do profissional da psicologia na instituição hospitalar e defendeu a atuação do psicólogo nos casos de tentativa de suicídio, que, a seu ver, só agora começam a sair das mãos dos médicos e psiquiatras.

CRP – Como foi seu ingresso na área de psicologia hospitalar?

Camon – Foi um pouco ao acaso, assim como foi minha entrada na psicologia. Eu era musicista, vivia de recitais, tinha um grupo que tocava em casamentos. Um dia, durante um casamento, uma freira me convidou para cuidar de um coral na penitenciária feminina. Lá, acabei trabalhando com o pessoal da psicologia. No presídio havia um grupo de profissionais de uma entidade chamada Organização do Auxílio Fraterno (OAF) que me chamou para trabalhar com eles. Eles trabalhavam com homens de rua, mas na OAF havia um grupo que trabalhava com pessoas que tentavam suicídio. Ou seja, da penitenciária fui para a OAF trabalhar com homens de rua e acabei no Hospital Santa Verônica.

CRP – Nesse período o senhor era ainda estudante?

Camon – Quando entrei no Santa Verônica eu estava me formando. Mas, no período em que estive na penitenciária e que trabalhei com homens de rua, eu estava na graduação. Foi muito legal porque, com a vivência que tive na penitenciária e no trabalho com homens de rua, adquiri condições de questionar o curso de formação do ponto de vista teórico. Lembro-me de um professor que dava aquelas pirâmides de Fister. Ele deu aquela teoria do inconsciente coletivo com a cor azul dando sempre o mesmo resultado. Foi a primeira vez que questionei alguém teoricamente. Eu disse “não, mas se aplicar isso na penitenciária vai dar outro resultado, porque lá eles usam uniforme azul e têm horror a azul”. Foi aquele embate e no fim ele se curvou. Imagine alguém que tem o azul como uniforme e odeia aquilo. O azul para essa pessoa tem outro significado. O vazio que o branco significa no teste, por exemplo, para quem é médico tem outro simbolismo. Logo depois que ingressei nesse grupo que trabalhava com suicídio o grupo acabou. Em 1977 comecei a trabalhar no Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas (HC), também com suicídio. E fiquei no HC até 1982, quando entrou a professora Mathilde Neder, para reestruturar o trabalho. Nessa ocasião, como estávamos implantando uma Rede Municipal, eu saí do HC e fiquei na Rede Municipal.

CRP – Nessa época em que o senhor trabalhou no Pronto-Socorro, como era encarada a atividade do psicólogo?

Camon – Quando cheguei ao Hospital das Clínicas, não havia nenhum trabalho anterior estruturado. Eu era o coordenador e havia psicólogos, assistentes sociais, psiquiatras. Prestávamos atendimento tentando acudir a pessoa num momento de desespero. Depois deliberávamos algum tipo de encaminhamento, algum tipo de atendimento. Foi esse o primeiro trabalho que fizemos com suicídio. Era um modelo teórico de atuação muito interessante e por isso foi um trabalho muito bombástico, teve uma repercussão grande. Hoje vejo que esse nosso modelo está espalhado em várias partes do país, porque nós publicamos. Se esse trabalho não estivesse publicado, teria caminhado no boca a boca, ou seja, teria caminhado pouco.

CRP – O senhor se refere à criação de um modelo teórico, porque o grupo criou uma abordagem diferente do que se praticava até então?

Camon – Sim, no sentido de acudir aquele paciente que tentou o suicídio, de não permitir a alta hospitalar. Por exemplo, um paciente que tinha ingerido comprimido teria alta após a lavagem gástrica. Mas não permitíamos a alta enquanto não tivesse a nossa abordagem, que tentava acudir a pessoa e, num segundo momento, deliberava um tipo de encaminhamento. Esse encaminhamento era feito para psicoterapia, para alguma entidade que dava apoio para o trabalho. Nós tínhamos várias entidades. Por exemplo, se uma pessoa que era empregada doméstica tentava o suicídio, nós encaminhávamos para a psicoterapia e para a Associação das Empregadas Domésticas. E ela era acolhida com teto e com emprego. Portanto, quando me refiro a um novo modelo teórico, estou falando nesse sentido, de rever o que era o desespero, o que era o momento agudizado do sofrimento da pessoa, para daí promover uma ajuda. Conforme falei, esse trabalho já era realizado pela OAF, nós entramos em 1977. Quando comecei a trabalhar com suicídio não se aceitavam psicólogos. Na verdade é uma área em que nós ficamos muito tempo como assessores do psiquiatra. O psiquiatra atendia suicídio e nós assessorávamos de vez em quando. Era considerado caso de psiquiatria porque tinha que ter medicação, tinha que ter camisa-de-força, uma série de coisas. Até hoje existe esse problema. É uma área de exclusividade do psiquiatra. Mas é uma área em que, graças ao trabalho do qual eu fazia parte, o psicólogo começou a ser ouvido. Existem poucas publicações sobre suicídio, mas grande parte das que existem são minhas. Foi uma conquista muito grande nesse sentido. Hoje já podemos falar de suicídio como uma coisa do desespero humano, uma questão filosófica da desesperança, da destrutividade, da falta de perspectiva existencial, do tédio com a vida; não é mais coisa do psiquiatra, é coisa do psi. É coisa da clínica.

CRP – Quer dizer que a partir desse trabalho já não se tratava a alta apenas a partir do ponto de vista orgânico, mas de uma maneira mais ampla. Como o restante da equipe via isso naquela época?

Camon – No começo eles viam com certo cuidado, com certo receio. Porque a questão emocional hoje em dia já está mais palatável para outros profissionais, como os médicos. Mas naquele momento não estava. Só que, efetivamente, havia resultados. Ainda mais se considerarmos que o HC recebe encaminhamentos de outras unidades do Município. A pessoa tenta suicídio com soda cáustica na Vila Mariana, vai para o Pronto-Socorro da Vila Mariana, lá eles a mandam para o HC. Então, apesar da rotatividade, as pessoas viam resultados, viam razão de ser para respeitar nosso trabalho e colaborar. Nós tínhamos uma colaboração muito grande e efetiva.

CRP – E a demanda era alta? Como era a realidade do suicídio?

Camon – Eram atendidos em torno de 400 casos por ano. Era uma demanda alta.

CRP – A equipe fazia um monitoramento dos momentos em que aumentava essa demanda?

Camon – Tivemos momentos muito marcantes nesse trabalho. Muitos dos casos de suicídio, na verdade, eram de “suicidados”. Eram vítimas dos espancamentos do DOI-Codi, de torturas, e era dada entrada no Pronto-Socorro como suicídio. Naquela época, a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) era proibida. Tinha polícia. Mas apresentamos um trabalho na SBPC em que tornamos públicas algumas informações. E aí foi um problema. Fomos impedidos de voltar ao hospital, mas depois voltamos novamente. Quando teve aquela fase de desemprego no início da década de 80, houve um crescimento muito grande de casos. O desespero das pessoas era originado no desemprego. Então nós publicamos um trabalho, chamado “Demissão final”, que foi também para a SBPC e saiu na grande imprensa. E isso dava uma repercussão muito grande. Lembro-me de que naquele momento tínhamos muitos depoimentos de pessoas falando que a psicologia estava preocupada com esse tipo de questão social.

CRP – O senhor está levantando uma questão a respeito da inserção do psicólogo na instituição. Seja no Poder Judiciário, em escola ou na instituição hospitalar, o que se observa é que, pelo fato de o psicólogo ser membro de equipes que não têm como prioridade atuar sobre as questões diretamente psicológicas, a interface fica diluída no corpo do trabalho. Que tipo de atuação o senhor concebe para o profissional da psicologia na instituição hospitalar?

Camon – Em primeiro lugar, o psicólogo não está preparado para o trabalho institucional, seja em qualquer instituição. E ele sempre esbarra em outros profissionais que, ao contrário, têm uma formação institucional. Na escola, esbarra com o pedagogo. No hospital com o assistente social, na empresa, com o gerente de recursos humanos. Isso se deve a ele não ter uma formação que lhe dê visão institucional. O que ele faz muitas vezes é transpor o aprendizado de clínica para a instituição. Não estou propondo que ele negue o instrumental clínico, mas ele tem que saber que a instituição, de fato, tem objetivos específicos. Em um hospital, não adianta eu fazer um trabalho incrível com um paciente isoladamente se esse meu trabalho não for ao encontro do objetivo da instituição. Se discordar dos objetivos da instituição, tenho que trabalhar para transformar esses objetivos. Se não conseguir trabalhar e transformar esses objetivos, e eles forem aviltantes, tenho que sair da instituição. Mas não posso ficar numa coisa contrária àquilo que concebo como proposta de homem, vida e valores. Agora, a instituição nunca vai ter a psicologia como prioridade. Nenhuma instituição tem algo como prioridade isoladamente. No Poder Judiciário, por exemplo, todas as ciências são acessórias do direito. É o direito que toca a relação das pessoas, que estabelece o limite de convivência. Então se estou numa instituição judiciária, não tenho que falar que o psicólogo é o principal, porque ele não é o principal. O principal é o direito. O preso está lá por uma condição do direito. As pessoas pautam todas as condutas pelo que está estabelecido pelo direito. Num hospital é a mesma coisa. O principal não é o médico nem o assistente social. O objetivo é prestar o atendimento, curar, aliviar a dor. Todos se prestam a esse objetivo. Se eu quiser que o psicólogo seja mais do que o assistente social, mais do que o médico, é um desvio. Acho que é isso que muitas vezes acontece.

CRP – Não é uma questão de ser mais ou menos. Mas de como fica a psicologia nessa realidade.

Camon – O que eu vejo muitas vezes é o profissional achar que ele tem que ter um papel mais importante do que o que de fato lhe cabe. Na verdade nós somos parte de um todo. Se temos uma crítica voltada à segmentação, quando se fala nessa prioridade, também se está fazendo um segmento. O psicológico é importante, como é importante o físico, como é importante a lei. Há alguns anos, ainda se discutia se o psicólogo tinha lugar dentro do hospital. Hoje esse lugar já é fato. Agora, cabe ao psicólogo ver o que ele vai fazer desse espaço.

CRP – E, na sua opinião, o que cabe a ele fazer desse espaço?

Camon – Ele conquistou espaço. E as próprias instituições perceberam que, entre todas as facetas de um trabalho multidisciplinar, havia necessidade de um profissional que fizesse a leitura do emocional, que decodificasse a emoção. Então ele tem lugar porque há essa necessidade hoje em dia. Hoje temos a psiconeuroimunologia, que tem quantificado o atendimento emocional, transformando. Então, quer dizer, ele tem um espaço. Agora, como trabalhar para fazer desse espaço algo em que ele possa fluir mais solidamente, sedimentar melhor essa performance, é uma questão bem mais complexa, principalmente porque ele não está tendo a leitura institucional conforme eu disse anteriormente. Ele vai para a instituição simplesmente fazendo um transporte do instrumental clínico, que muitas vezes é individual. Ele aprende na faculdade a aplicar teste, técnica de entrevista, técnica de abordagem etc. Não aprende a trabalhar em grupo e de repente vai para uma instituição que exige dele o trabalho grupal, multidisciplinar, interdisciplinar.

CRP – Então na sua concepção, depois de tantos anos de psicologia hospitalar, as pessoas que estão saindo da graduação continuam com dificuldades de trabalhar em instituições porque não aprenderam na faculdade?

Camon – Não. Isso está mudando. Hoje não é verdade se dissermos simplesmente que ele não tem essa condição. O primeiro curso de especialização do Brasil foi o do Sedes Sapientiae, de 1981. De graduação, é o da PUC, de 1976. Nessa época, havia uma ou outra faculdade aqui ou acolá que dava uma ou outra palestra. Hoje em dia a maioria das faculdades tem psicologia hospitalar na graduação. Tem curso lato sensu na psicologia hospitalar. Quer dizer, se o aluno quiser, ele tem já na graduação uma forma de entrar em contato com esse espaço. Hoje, a maioria das faculdades tem. Se não é satisfatório, pelo menos já está havendo uma abertura. Talvez daqui a um tempo já se tenha uma matéria de análise institucional mesmo na graduação.

CRP – Na sua opinião, o que é mais interessante como instrumentalização para o recém-formado trabalhar em instituição, cursos específicos em cada área (psicologia hospitalar, por exemplo) ou um curso que habilitasse o aluno para trabalhar em instituição de maneira geral?

Camon – Uma matéria de análise institucional vai dar uma visão de instituição. Agora, cada instituição dessas tem especificidades tão próprias que não dá para transpor. Senão corre-se o mesmo risco de pegar o instrumental clínico e levar para a instituição. Imagine uma instituição corretiva de menores. É um mundo completamente diferente da própria instituição penal do adulto. Que é completamente diferente de uma instituição de homens de rua, que é completamente diferente de uma instituição de Aids, de um hospital, e assim por diante.

CRP – O senhor disse que no início de sua carreira foi possível fazer um questionamento na faculdade em função de sua vivência no trabalho com homens de rua. As clínicas-escola atendem apenas no modelo clínico. Partindo disso, como deveriam ser estruturados os estágios e as clínicas-escola?

Camon – Se compararmos uma clínica-escola de psicologia com uma clínica-escola de medicina vamos verificar que a de psicologia não vai ao encontro das necessidades da comunidade. A clínica médica ainda vai. A clínica-escola de psicologia vai ao encontro das necessidades da graduação. Se no currículo tem a matéria ludoterapia, então a clínica abre atendimento para ludoterapia. Se a comunidade precisar de ludoterapia, boa. Se a faculdade abre a matéria de psicomotricidade, então ela precisa de pacientes de psicomotricidade. Mas ela não vai a campo para ver o que a comunidade em que está inserida está precisando. Pode ser que essa comunidade não tenha casos de psicomotricidade, mas precise entender mais questões de abandono, alcoolismo. Esses casos não são atendidos. Nem sequer são abarcados na preocupação da clínica-escola. Ela não atende a essa necessidade. Ela impõe sua necessidade para a comunidade. Portanto, o primeiro passo era fazer essa inversão.

CRP – Se a prática está distante do que a comunidade necessita, como anda a produção teórica na Universidade?

Camon – Recentemente uma professora da Universidade do Rio Grande do Norte me disse que ela não sabia se os professores da USP eram melhores ou piores, mas que para ela eu era o melhor de todos porque escrevia sobre a nossa realidade e, quando ela precisa de qualquer coisa, vai a uma livraria e tem lá um livro. E que as grandes produções das pessoas da USP estão na biblioteca da USP. Acho que é isso. Quando se faz trabalhos as pessoas têm tanto medo de divulgar, tanto medo de crítica que acabam às vezes se encastelando. Não é possível que tantas pesquisas que se fazem de mestrado, de doutoramento, com coisas interessantes com meninos de rua, com Aids, fiquem só no meio acadêmico. Por quê? Porque quando as pessoas pensam em divulgar tem tanto revisionismo, tanta criticidade, que não expõem.

CRP – Como a instituição hospitalar está lidando com a questão emocional hoje?

Camon – Hoje a questão emocional deixou de pertencer só ao psicólogo. O próprio médico clínico, o ginecologista têm um olhar voltado para o emocional. O médico já o vê, busca, quantifica. Ele só não sabe lidar com esse emocional. Aí é que nós entramos. Mas essa preocupação não é só de profisisonais psi. Por isso é que nós temos espaço.

CRP – O aluno que entra hoje no curso de especialização do Sedes Sapientiae chega diferente do que há algum tempo em termos de preparação?

Camon – O que vejo é uma desqualificação dos graduados de ano para ano. Nós já tivemos absurdo de ter há uns anos uma pessoa que era professora de uma Universidade do Norte que veio e escreveu na prova de avaliação criança com dois s. Um psicólogo que escreve criança com dois s, acho que nunca leu, porque qualquer texto de psicologia tem a palavra criança três vezes no primeiro parágrafo. Como é que uma pessoa vai dar aula assim?

CRP – A psicologia hospitalar abriu novas possibilidades de conhecimento na área da psicologia?

Camon – Sim, porque a partir da entrada do psicólogo no hospital tem essa forte vertente de se preocupar com aspectos emocionais da dor, com aspectos emocionais de várias patologias, câncer, cardiologia etc. Sem dúvida. Se há tantas pesquisas hoje em dia nessa área é muito em função da entrada do psicólogo na área de hospital.

CRP – E se ela é inovadora em termos de conhecimento, ela também é inovadora em termos do atendimento?

Camon – Sem dúvida. No hospital o profissional vai para um outro setting que é na enfermaria, no leito, junto com outros profissionais. O atendimento é interrompido porque chegou a enfermeira com a medicação, enfim, é um outro enquadre. Mas de repente você vê que naquele outro setting seu trabalho funciona. Você tem outros objetivos, também temos que separar. Porque qual é o objetivo numa psicoterapia? Os três grandes objetivos numa psicoterapia são, independentemente da linha teórica: levar o paciente ao auto-conhecimento, ao auto-crescimento e à cura de determinados sintomas. Se você não atingir esses objetivos, a psicoterapia está carecendo de sentido. Não adianta fazer um trabalho incrível e o paciente não estar sendo levado ao auto-conhecimento, ao auto-crescimento e à cura dos sintomas. No hospital, é importante que essa diferença seja sempre frisada. Eu até posso atingir no meu atendimento algum desses objetivos. Mas o meu objetivo no hospital não é nenhum desses. É minimizar o sofrimento provocado pela hospitalização. O sofrimento da hospitalização varia de patologia para patologia. Para uma mulher que vai ser mastectomizada, por exemplo, a hospitalização tem implicações muito mais amplas que só o hospital. Tem implicações de sexualidade, de auto-estima, de auto-imagem, e por aí afora.

CRP – O senhor está apontando diferenças de enquadre na psicoterapia e no tratamento no hospital? E nos casos de suicídio?

Camon – No suicídio ele tem uma especificidade bastante clara. Trabalhávamos com a pessoa no momento agudo do desespero. Então configura também a minimização do sofrimento da hospitalização. Estamos atenuando aquele desespero naquele momento que configura a hospitalização. Depois, sim, é que vai ser deliberado que tipo de encaminhamento deve ser feito.

CRP – O senhor também realizou um trabalho com pessoas que tentavam suicídio no metrô. Como foi esse trabalho?

Camon – Foi na gestão Erundina. Tínhamos um trabalho com várias frentes. Uma das frentes era com o pessoal do serviço do metrô. Nós os atendíamos e tínhamos um treinamento, um serviço específico junto às estações. Era um trabalho bastante interessante. Depois que mudou a gestão, esses trabalhos todos que foram feitos na gestão Erundina pararam. Embora o metrô seja vinculado a uma secretaria estadual, essa ponte com a Secretaria Municipal de Saúde se perdeu. Nós fizemos um treinamento com as pessoas do próprio metrô que trabalhavam nas estações e sedimentamos uma base de atendimento com duas unidades hospitalares. Uma no hospital do Jabaquara e outra no hospital do Tatuapé. Os casos eram encaminhados para essas unidades. E nas unidades nós tínhamos pessoas treinadas que davam suporte. O pessoal do metrô era treinado para tirar a pessoa da pista e encaminhar para as unidades do hospital. Aí tinha a nossa equipe que chamava a família etc. Esse trabalho também era baseado em dar suporte no momento de desespero, de crise, em que a pessoa não está conseguindo ver possibilidade na vida. Nós não levávamos pessoas de fora, trabalhávamos com as pessoas das próprias unidades, médicos, psicólogos, assistentes sociais etc. Inclusive era a ambulância do próprio metrô que levava a pessoa para a unidade.

CRP – Nas duas últimas administrações, tanto estadual quanto municipal, e até mesmo na esfera federal, temos assistido ao desmonte de todo o sistema de saúde pública no Brasil. O que já perdemos em termos de psicologia hospitalar?

Camon – Houve o desmonte de trabalhos sistematizados que envolviam a prioridade comunitária. Algumas pessoas ainda continuam fazendo um bom trabalho nessas unidades. Mas da preocupação ideológica e comunitária não sobrou nada. Principalmente aqueles trabalhos que envolviam preocupações antimanicomiais, não sobrou nada.

CRP – Você trabalha numa abordagem existencial. Na psicologia hospitalar tem profissionais de várias abordagens. Como se dá essa convivência de linhas de trabalho diferentes?

Camon – As pessoas fazem uma certa confusão. Acreditam que, pelo fato de eu escrever a partir de um ponto de vista existencial e ser identificado com o movimento existencialista, a melhor linha para hospital é a existencial. Mas não é isso, há grandes trabalhos em hospital com base psicanalítica, com base de behaviorismo e com base existencial. Se eu for para uma empresa, vou trabalhar com existencial, que é a minha base. Quando falo de desespero humano, estou falando como existencialista. Não estou falando enquanto teórico existencial, mas enquanto clínico. Eu poderia ter como base a psicanálise e estar falando de desespero humano.

CRP – Como deve ser colocada a questão de acolhimento, suporte e aceitação no atendimento a casos de auto-destruição e suicídio?

Camon – Eu preconizo o seguinte: na verdade o fundamental é o acolhimento, é a pessoa sentir que ela está acolhida num porto seguro para refletir sobre o desespero dela. Acho importante trazer isso para o psicólogo, porque temos condição de lidar com o desespero. Nos trabalhos de suicídio, há uma dimensão filosófica, a questão do sentido da vida é uma digressão filosófica, em qualquer linha teórica. Não se traz para a claridade que alguns teóricos psi se mataram, tipo Melanie Kleine. O Deleuze estava com falta de ar e se jogou. O que é suicídio? É alguém acabar com a própria vida, por deliberação. O Deleuze se jogou porque não agüentava mais o desespero da falta de ar. E são brilhantes teóricos. Mas é uma questão de desespero humano, e é isso que tem que ser trazido à tona. E essa discussão não é mais da psiquiatria. Ela é da psicologia. Tem que ser da psicologia na medida em que a psicologia está apta para mexer com psicoterapia. Senão o que acontece? O meu paciente em psicoterapia fala de suicídio e eu o encaminho para medicação? E o desespero humano dele, eu não levo em conta?

CRP – Mas, no seu entendimento, por que essa questão ainda fica atribuída ao psiquiatra?

Camon – Porque nós não estamos assumindo que é uma questão de desespero humano, e que é grave, como tantas outras questões.

Precisamos de heróis

César Tácio V. da Silva

Ainda estamos absortos com a notícia do acidente aéreo que vitimou Sua Excelência Ministro do STF, Teori Zavascki. O fato foi de grande repercussão no nosso país e no mundo por dois fatores: primeiramente por que foi um trágico acidente que levou à morte um membro da Suprema Corte do país, um dos Três Poderes da República Federativa do Brasil: depois porque era o ministro relator dos processos da Operação Lava Jato, considerado o maior caso de corrupção de todos os tempos. Assim sendo, paira uma dúvida que não quer calar: Foi, realmente, um acidente, ou, estamos diante de um atentado?

Não vou me ater aqui ao fato noticiado nem à pessoa do ministro Teori. O que me leva a escrever, é uma declaração do juiz federal Sérgio Moro, escrita em rede social, usando vários adjetivos para o ministro. Mas, houve um, que me fez refletir profundamente: “morre um herói”. Essa expressão me motiva a conversar com o prezado leitor e questionar: Quem são os nossos heróis? e, como são os nossos heróis? e, por que precisamos de heróis?

Desde minha infância lembro-me de que heróis são suscitados em nossa sociedade. Vem-me à memória Pelé, o atleta do século, que é brasileiro e negro, um representante perfeito para o país do futebol; lembro-me também dos meus pais falando de Getúlio Vargas, “o maior presidente que o Brasil já teve”; e… como poderia me esquecer do nosso libertador que, em cima do seu fiel cavalo (qualquer semelhança com Silver não é mera coincidência), às margens do rio Ipiranga bradou retumbante a célere frase “independência ou morte!” e, em seguida retornou para as regalias do país que nos oprimia, e deixou seu filho, ainda garoto, como príncipe regente do mais novo império do mundo, sob a custódio do mordomo leal (ou seria real?).

Recentemente, antes de Teori se tornar herói, estávamos ainda homenageando os nossos heróis da Chape, o time de futebol da Chapecoense que fora vitimado, quase dizimado, também em um acidente aéreo, cujo anti-herói, o negligente piloto e proprietário da companhia aérea responsável pelo avião,  já foi execrado.

O moderno poeta e cantor, Cazuza, disse que os seus “heróis morreram de overdose”, transparecendo aquele gosto de frustração quando vemos nossos heróis, principalmente do esporte e da música, envolvendo-se com práticas espúrias, senão criminosas, ao menos, suspeitas. E o simples fato real de que os heróis erram e frustram seus súditos nos dão o choque de realidade de que heróis são simplesmente a tipologia do perfeito para a qual elegemos o arquétipo da vez, seja um medalista de ouro dos Jogos Olímpicos, um juiz que põe na cadeia os inimigos da erário ou, um ministro do STF, que estava prestes ou não (quem sabe?) a homologar o maior acordo de delação já proposto no Brasil.

Verdadeiramente, precisamos de heróis. Sejam eles homens, mulheres, negros, pobres, políticos, atletas… Precisamos de indivíduos que nos representem, que sejam nossa voz, nossa vontade, nossa força. Pode a morte ceifá-los, podem as falhas manchá-los, pode o tempo esquecê-los… Precisamos de heróis.

Mas, vejam. Os heróis, são os representantes do nosso eu objetal. Se vencem, somos nós que vencemos. Se triunfam, somos nós que triunfamos. Se nos frustram é porque nos projetamos neles na esperança de que sejamos melhores neles. Nós nos amamos porque queremos ser objetos desse amor próprio. Dirigimos a eles nossa força libidinal porque deles recebemos a força da esperança na expectativa narcisista de sermos os melhores dos melhores. Nada mais narcísico, egoísta e soberbo do que eleger heróis. Pois, o que são heróis se não os melhores dos melhores.

Sim! Precisamos de heróis?…

O Déficit da Previdência Social. Que déficit?

            Recentemente um novo assunto, dos tantos oriundos do governo (e, diga-se de passagem, que nesse ano foram demasiadamente vastos), tomou espaço considerável na mídia e entre os diversos setores de trabalhadores: a Reforma da Previdência, também conhecida como PEC 241. Assim chamada por se tratar de uma proposta de emenda constitucional, que significa que o governo federal elaborou um projeto de reforma do regime geral da previdência social. Entre muitos assuntos dos quais essa proposta pretende reformar está a extinção da aposentadoria especial de algumas classes de trabalhadores, que está na Constituição da República do Brasil desde sua promulgação em 1988 (que particularmente atinge a mim e a minha esposa)

            Outras propostas são a idade mínima de 65 anos e, o pagamento de aposentadoria integral apenas depois de 49 anos de contribuição. Um salto de 14 anos a partir dos atuais 35 anos. Não sou expert em previdência social, mas sou inteligente o suficiente para usar meu raciocínio lógico e meu bom senso para dizer que mudanças tão drásticas jamais aconteceram em outros países. O governo federal, provavelmente descomprometido com a questão eleitoral, decidiu não subir impostos, mas cortar gastos previdenciários, que ele considera um déficit insustentável.

            Há muitas formas de se pensar a previdência social, mas todas as que são citadas pelo governo, no meu entendimento estão equivocadas. A princípio, o governo reclama das aposentadorias precoces e de pensionistas que ficam recebendo por anos e anos a fio, dando prejuízo ao erário. No entanto é necessário pensar pelo ponto de vista que previdência social não deveria ser atrelada ao erário, pois é um sistema complexo e dinâmico demais para atrelar-se ao que se arrecada com ela e ao que se paga com ela.

            O atual sistema teve sua implementação no ano de 1960 quando a lei orgânica de previdência social, Lei 3.807 de 1960, integrou diversos sistemas. E esse foi o primeiro grande erro. Desenvolveu-se de uma forma anacrônica e desequilibrada porque passou a integrar as contas do governo. Vários ajustes foram feitos, mas sempre teve resultado deficitário. Entretanto, como eu disse acima as justificativas para as atuais mudanças não são lógicas. Vou contar uma história que ouvi há tempos atrás e desconheço o autor:

            Numa turma de certa Universidade a maioria dos alunos defendia a ideologia comunista. Um professor que se declarava capitalista e democrático era constantemente abordado pelos alunos sobre essa questão. Então, logo no princípio de um ano letivo, decidiu propor aos alunos que suas aulas e avaliações fossem feitas no sistema comunista. Todos os alunos amaram a ideia e, de pronto, aceitaram a proposta. E assim o ano letivo começou. Na primeira avaliação aplicada pelo professor, após a correção das provas, ele apresentou aos alunos como seriam as suas notas no sistema capitalista. Assim houve alunos que alcançaram dez, outros, nove, até alguns que chegaram apenas ao grau zero. Após aplicar o sistema comunista todos ficaram com 5, nota insuficiente para a qualificação mínima exigida pela universidade. Os alunos que tinham tirado notas baixas ficaram felizes, mas os alunos que haviam tirado notas altas ficaram inconformados. Porém o professor explicou que era assim que funcionava no sistema comunista: alguns se esforçam muito para ajudar aos que se dedicam menos e, no final todos recebem o mesmo. Os alunos então se calaram e o ano prosseguiu. Nos próximos bimestres, os alunos que ficaram felizes se acomodaram mais um pouco e se esforçaram menos, o mesmo ocorreu com os alunos que ficaram inconformados. Estudaram menos e tiraram notas menores também. No final do ano todos os alunos ficaram reprovados porque a média geral não foi suficiente para que todos passassem juntos. Então, ficaram reprovados juntos. É o método comunista.

            É assim que está a previdência social do Brasil hoje. Muitos trabalham e contribuem muito para se aposentarem com pouco, enquanto outros trabalharam pouco e contribuem pouco em relação ao que ganham na sua aposentadoria. Por exemplo, o próprio presidente Michel Temer se aposentou aos 55 anos, como procurador do estado de São Paulo e recebe daquele estado mais de R$ 30.000,00 de aposentadoria por mês (http://www.cartacapital.com.br/politica/temer-prepara-reforma-radical-da-previdencia), além de acumular os salários que ganhou como parlamentar, como vice-presidente e agora como presidente. É bom lembrar também que nem os militares, nem os membros do poder judiciário, bem como os membros do poder legislativo, que são os maiores salários, entraram na proposta de reforma. Ou seja, querem fazer com que os trabalhadores, que já ganham pouco, paguem a conta para que eles continuem na mamata.

            Outra questão importante é que há que se separar previdência social, seguridade social e assistência social. Por exemplo, se você contribui por toda a sua vida de trabalhador e se aposenta no tempo correto de contribuição, você é coberto pela previdência social. Mas, se você fica doente e precisa se aposentar por invalidez, isso pertence ao campo da seguridade social. De outra monta, pessoas que não podem trabalhar por causa de filhos portadores de cuidados constantes, ou que tem idade, mas não tem tempo total de contribuição e recebem o Loas (Benefício de Prestação Continuada), trata-se de assistência social.

O governo faz um bolo com isso tudo e joga na conta da previdência social, o INSS, o que é muito injusto. Penso que os sistemas deveriam ser separados e contabilizados separadamente, assim saberíamos o que realmente dá prejuízo e como poderíamos resolver isso. Outro fator importantíssimo é que os servidores da União não estão debaixo do regime geral da previdência social, mas no sistema diferenciado. Não creio que esse seja um problema, mas que não deveria entrar numa única conta. Esses sistemas deveriam ser separados e analisados de forma distinta. A unificação do sistema detonou o levou à sua implosão.

 Depois desse blá-blá-blá todo resolvi buscar na internet uma forma de calcular se a previdência, e apenas a previdência, dá prejuízo mesmo. Então optei por uma fórmula de juros compostos (mês a mês sobre o que se contribui acumuladamente) sobre contribuições mensais de R$ 196,00 (20% sobre o salário mínimo que, é a soma do que o trabalhador contribui mais o que o patrão contribui) em 35 anos, sem levar em conta inflação e correção do salário mínimo, com o juro de aplicação mais baixo que existe no Brasil que é o da poupança, 0,69% a.m.; além disso, somei os meses de 13% salários e 1/3 sobre as férias do trabalhador, que foram acrescentados no final e, não como é atualmente a cada ano, o que aumentaria o valor de juros. Assim temos (35×12)=420+35+12=467 contribuições Pasmem! vejam o que deu: R$ 607.319,40 (http://www.clubedospoupadores.com/simulador-de-juros-compostos). Se você então calcular o juros de poupança sobre esse capital dá R$ 4.190,50. Então, conclui-se que se você contribuiu 35 anos, apenas sobre o salário mínimo, e isso fosse colocado numa poupança, como eu acho que deveria ser o regime de previdência, você teria direito a receber R$ 4.190,50. Mas o governo só vai devolver-lhe R$ 880,00, ou seja, ele embolsa R$ 3.310,50, mais o capital que, mesmo que você morra ele não vai devolver para sua família. Esse valor daria para pagar mais 3 outras pessoas e meia. Imagina se coloca-se o juro da Selic, que é a taxa que ele paga a quem pede dinheiro emprestado.

Convenhamos… Você acha mesmo que a previdência dá prejuízo? O governo pega o seu dinheiro, gasta tudo e, depois diz que dá prejuízo. Não lhe paga juro, não lhe devolve o que você juntou, nem lhe dá opção de não querer. O nome pra isso, em minha opinião é um estelionato ditatorial. Por que, então, eles não privatizam a previdência? Por uma razão muito simples: o governo perderia essa receita. Ahã… prejuízo que nada.

 

Partiu-se o cordão de prata

5. Nós estaremos caminhando para o nosso último descanso; e, quando isso acontecer, haverá gente chorando por nossa causa nas ruas. 6. A vida vai se acabar como uma lamparina de ouro cai e quebra, quando a sua corrente de prata se arrebenta, ou como um pote de barro se despedaça quando a corda do poço se parte. 7. Então o nosso corpo voltará para o pó da terra, de onde veio, e a o nosso espírito voltará para Deus, que o deu.
8. É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão.
(Eclesiastes 12.6-8, NLH)
A coisa mais certa da vida é a morte. Desde que nascemos caminhamos para a sua direção como trens vão para o seu destino sobre trilhos que os conduzem. Somos por ela atraídos como qualquer tipo de massa quando se aproxima de um buraco negro. Ela é inevitável e, todas as pessoas sabem disso. O problema é que tão quanto seja inevitável tanto é indesejável. Ninguém quer morrer e, nem mesmo conviver com a morte de alguém próximo. Ela nos choca, nos faz chorar, nos traz tristeza, interrompe o amor, a alegria o curso do existir.
Recentemente perdi um colega de trabalho, um conhecido da família, um artista que admirava, um esportista  símbolo de uma geração de vencedores. Como é cruel essa tal de morte. Não escolhe tipos, não tem preferência, não vê beleza, inteligência ou idade. Leva a todos sem misericórdia nem cerimônia. Com ela não tem diálogo nem argumento; sua dialética é monocrática, sua prática… é incansável; seu descanso é descansar aos outros que mesmo sem se sentirem cansados são obrigados, por ela, jazerem na paz aparente do silêncio frio e gélido daquilo que chamamos sepultura.
De todos os golpes que essa carrasca insensível me desferiu há um que deixou uma cicatriz que nenhuma cirurgia plástica pode fechar. Um golpe que contraria o curso natural do rio da bios que a zoe sabe que tem de enfrentar, mas que a psiquê deseja que não exista. Entretanto só quem tem um pneuma reforçado pelo Logus pode superar.
Nasceu como todos os bebês nascem; chorou como todos os nenéns choram; alegrou-nos como todos os que vêm à vida nos alegram. Mas se foi como nunca queremos que se vão. Nos deixou para ascender ao nível dos que, revestidos de inocência, reinam. Menos de 3 dias habitou entre nós, mas suficiente foi para nos marcar para sempre, ao ponto que sua sua congênere caçula que mais tarde supriu sua ausência dela fala como se podesse sentir, ou se em breve lhe fosse encontrar pra matar a saudade de quem jamais conheceu, mas a alma se lhe apegou como se gêmeas univitelinas fossem.
Crueldade senhora morte! Antes tivesse levado o pecador que a gerou. Antes tivesse arrastado o pai imerecedor, que permanece nesse mundo sem nada dele ter, nem pretende levar, mas que como um castigo tem que conviver com a saudade da princesa que um dia viu nascer, tomou nos braços, embalou, beijou, mas, teve que se despedir, na certeza de que no além a terá novamente nos seus braços quem a amou no plano do tempo que não tem planos. Apenas corre despretensioso, sem rumo, sem sabe onde vai chegar, no entanto sabe, que sendo lá o cá, vai… sim vai… chegar.
Um princesa se foi como nos contos de fada quando se acaba o conto, mesmo que naquele ponto houve-se o jargão, mais batido que que o tic tac do contador, não de contos, mas de pontos que chamamos cronos, “e viveram felizes para sempre”. Frase ilógica, sem nexo nem explicação. Aqui não se vive para sempre; aqui não se é feliz para sempre; aqui, nem mesmo, existe o sempre. Esse sempre não é daqui, ao contrário, para viver o sempre necessário é paradoxalmente daqui sair.
O que se sabe da morte é que depois dessa sorte para os que encontraram o norte e se refugiaram no Forte há um pórtico, não isento de como se comporte, que conduz o consorte para o caminho da Luz que não se apaga, não se finda, mas se torna a mais pura, a mais linda, do mundo e, ainda mais profundo, do universo e, ainda mais imerso, do tempo e além do tempo, além do aqui, além do agora, além do após.. o KAIRÓS.

ERRATA! UMA AUTOANÁLISE DO ERRO

Um dos meus, cerca de menos de dez (desculpem-me o exagero!), leitores, ao ler o texto “Amizade, amizade, onde lhe deixei?”, me fez um elogio e uma correção. É claro que o elogio nos massageia o ego, mas a correção nos faz refletir o quanto incapacitado somos, ou, pelo menos, o quanto não somos tão inteligente quanto cremos. Agradeci imensamente ao caro leitor que sugeriu-me voltar ao texto e corrigi-lo, enquanto alguns poucos o leram. Aceitei a sugestão, entretanto estive pensando que, tão somente corrigir aquele texto, não é uma tarefa que dignifica os meus prezados leitores, nem condiz com o nome desse blog. Se o nosso foco é o discurso, então, até mesmo os erros que ele apresenta precisam ser discutidos. Concorda? Pois então vamos ao que gerou o tema desse texto.

A palavra sinalizada foi “expetacular”, que  o meu leitor me lembrou que se escreve com “s” e, deveria então, ser escrita da seguinte forma: espetacular. Corretíssimo o meu caro leitor. É isso mesmo: segundo o Dicionário Prático da Língua Portuguesa – Aurélio, espetacular se escreve com “s”. Então, por que decidi escrevê-la com “x”? Passemos à algumas possibilidades, tendo em vista que o ato de escrever é uma construção realizada a partir da linguagem, que é o código de símbolos que usamos para nos expressar (essa sim se escreve com “x”, pois tive o cuidado de pesquisar no vocabulário, é claro). Pois então, se a linguagem é o material da es(x)crita, a língua, no sentido de idioma, é a ferramenta do es(x)critor. Sendo assim, nos comunicamos por meio da linguagem, mas, a esculpimos, por meio da língua. Por isso o domínio dela é uma habilidade laboral de quem deseja ter o discurso como foco. Vejamos:

1 – Posso ter escolhido o “x” porque este, no teclado do computador, fica logo abaixo do “s” e, numa digitação rápida posso ter levado o meu dedo um pouco mais abaixo o que provocou um erro de digitação;

2 – Posso ter escolhido o “x” porque a palavra que antecede àquela em questão se escrevia com x: experiência. Assim, numa ação automática o cérebro escolheu sem pensar, numa sequência de repetição autômata;

3 – Posso ter escolhido o x porque na língua grega, que vez por outra uso para fins de exegese e eisegese dos textos bíblicos, o “Εκ” ou “εξ” é uma preposição para exprimir algo que é expulso de dentro para fora numa dinâmica muito excêntrica. Diferente do “es” ou “ειξ” que significa uma dinâmica oposta, algo que se movimenta de fora para dentro, como na eisegese, que também uso no estudo de textos bíblicos;

4 – Posso não ter escolhido o “x”, mas ele se meteu ali, de forma petulante, sem pedir licença, sem dar explicações, como um símbolo de algum conteúdo recalcado em meu insondável inconsciente;

5 – Posso não ter escolhido o “x” conscientemente, mas de uma forma manifesta um ato falho o fez se inserir naquela palavra, expressando uma necessidade de colocar à vista uma angústia, uma dor, ou quem sabe, um “grito” de socorro, de um conteúdo aflitivo assombroso do recôndito do meu inconsciente;

6 – Posso ter escolhido o “x” por se tratar de uma letra mais forte, mais expressiva para o significado do pensamento que tinha, no momento da elaboração associativa, a respeito da qualificação daquela “experiência”;

7 – Posso não ter escolhido o “x”, mas ele me escolheu e tornou-se o agente daquela manifestação expressiva do id inconsciente, decidindo quebrar uma regra gramatical para satisfação semântica de um desejo recalcado, mas ativamente conflitivo;

8 – Posso ter escolhido o “x” por causa de algum mecanismo de defesa que, no momento da elaboração, associou o “s” a alguma ameaça real ao ego, talvez uma expressão usada recentemente por alguém que representa um grande perigo ou seja autor de um estelionato de proporções avassaladoras, tipo “espetáculo do crescimento” ou “crescimento espetacular” ou quaisquer outras locuções da mesma extirpe;

9 – Posso ter escolhido o “x” talvez porque o meu superego tenha associado o “s” a alguma outra palavra proibida ou que componha a galeria de proibições por ele elaborada desde há muito tempo, tais como esperma, espermatozoide, sensual, etc.

10 – Ou posso ter escolhido o “x” simplesmente porque errei mesmo e, só me resta me desculpar pelo meu erro, por minha ignorância de não saber que espetacular se escreve com “s”, por minha falta de atenção por não ver o grifo de vermelho que os editores de textos sempre fazem em palavras gramaticalmente erradas,  por minha preguiça em ler atentamente o texto que escrevi para corrigi-lo. Apesar de ser essa a hipótese menos provável, é totalmente possível. Portanto: Minhas desculpas.

Amizade, Amizade, Onde Lhe Deixei?

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir. 

Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende. 

Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.

Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.

Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.

Porque amigo sofre e chora.

Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.

Porque amigo é a direção.

Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.

Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.

Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,

Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!


MACHADO DE ASSIS

Semana passada tive uma experiência expetacular que, ao mesmo tempo que me despertou sentimentos de alegria e satisfação, também me fez refletir sobre um tema que passo a compatilhar com meus generosos leitores:

POR QUE DEIXAMOS MUITAS AMIZADES AO LONGO DO CAMINHO?

Não sei se isso acontece com todas as pessoas, mas comigo aconteceu muito, ao longo de minha vida. Parece que os amigos surgem e se vão de nossa vida deixando-nos a saudade da amizade sincera e o gostinho de um prazer sensacional. Ah! essa tal de amizade… Por que será que vem a vai de nossa vida sem explicação? deixa-nos a saudade como que uma ferida que sinaliza a vontade de voltar atrás.

Como disse, semana passada revi amigos. Amigos que passaram por mim e, passaram comigo momentos únicos que parecem até que não existiram. Parece que foram momentos de sonhos, que vieram e que retornaram, como onda de um mar em ressaca que mostra que veio, que não ficou, mas que deixou suas marcas.

Como explicar a nossa tendência humana de buscar o novo que não conhecemos, pelo qual ansiamos, e desejamos, pelo simples prazer de desbravar, de descobrir, de encontrar, de se realizar… enquanto que o que amamos e desejamos está conosco o tempo todo, faz parte da nossa vida, do nosso presente. Assim mesmo o abandonamos em nome de um algo obscuro que transformamos num objeto falsamente seguro. Esse mesmo… esse tal de futuro.

Minha adolescência, apesar de passado, foi algo, a mim dado pela vida, por Deus, pela sorte da diversidade das possibilidades que se conificaram e convergiram para o que de forma intensa, maravilhosamente imensa, moldava-se naquilo que foram meus melhores anos. Anos que achava que não tinha me encontrado ainda, mas que hoje vejo que foi lá que a vida se revelou ser o que eu sempre lutei pra ter.

Apesar do paradoxo resta compreender que é assim que a vida nos leva. Vamos pra lá e pra cá buscando muitas vezes 0 que temos já. Mas nossos olhos não são capazes de ver, nem nosso raciocínio capaz de compreender. Porque são coisas que não se vêem nem se copreendem, muito menos se medem ou se pesam. Não há para elas, valores. Nem tampouco podemos comprá-las. São coisas que buscamos alcançar e, a vida empenhamos a ponto de a desgastar. E depois da jornada exaustiva logramos, à conclusão chegar: essas coisas, amizades, amores, calores, felicidade, alegria, na verdade… bem mais perto estavam, o tempo todo, ao lado de quem, por muito anos, a garimpar estava no tesouro do rio que navegava.

Nos consola, no entanto, saber que a caminhada não se resume à chegada. Ela tem muita mais que isso, é uma jornada. Seguimos mas, por vezes paramos, há momentos que retrocedemos, parece que desanimamos, porém, quando para cima olhamos… um braço estendido! então levantamos e, o caminho retomamos. É essa dinâmica que nos faz perceber que não importa a chegada desde que vivamos a jornada como se começo e fim fossem as faces de uma mesma moeda de valor incalculável, mas todos os homens em todos os tempos recebem, não para guardar nem par gastar, senão para investir suas forças e valores, naquilo que decidimos, seja com espinhos ou flores, nomear de VIDA.

O que fizeram dos meus campos de várzea?

Cresci jogando futebol nos campos de várzea da minha cidade. Os mais novos talvez me perguntem: mas o que é um campo de várzea? Ah! questão difícil. Definir aquilo que nasceu da boca, ou melhor, dos pés do povo. Os campos de várzea surgiram quando antigamente, bem antes da explosão demográfica das cidades, ninguém residia às margens dos rios. Estas serviam apenas para alagar os leitos nos tempos de chuva intensa, bem antes (e bota antes nisso!), que as enchentes chegassem à nossa casa e levasse tudo rio abaixo, literalmente, deixando apenas aquela lama de odor repulsivo.

Bem! nos tempos de pouca chuva as várzeas eram transformadas em campos de futebol. As traves eram colocadas, as redes tomavam seu lugas e, as marcações feitas de cal ali ficavam para que as regras do futebol pudessem ser respeitadas. É… isso nos campos mais sofisticados, porque na maioria dos nosso campinhos (assim os chamávamos simploriamente!) eram simplesmente aquela planície endurecida, quando muito tinham aquelas areias de rio. Lembro-me que em alguns deles havia aquela gramínea que mais pareciam capim mesmo. O nossos aparadores de gramas eram alguns pangarés deixados ali por amantes do futebol que resolviam dar a sua contribuição (É claro que os carrapatos também faziam parte da doação).

Talvez o prezado leitor esteja pensando que cá escrevo, tão somente, para reclamar da ausência de campos de futebol em nossas cidades. Ou para apontar a falta de áreas de lazer que é uma realidade da maioria dos territórios interioranos. Ou quem sabe para incentivar os nossos governantes a incluírem em seus orçamentos o lazer público e barato. Ou ainda estimular os candidatos e englobarem essa proposta em suas pautas de eleitoreiras. Mas o que desejo mesmo aqui é refletir sobre uma frase que tenho ouvido de comentaristas de futebol sobre os nossos últimos resultados em torneios internacionais: “a atual safra de jogadores brasileiros é ruim.” O que isso quer dizer? que não produzimos mais jogadores como antigamente? Que faltam craques em nosso futebol?

Faço então uma outra pergunta: de onde saem os jogadores de hoje? qual o acesso e o incentivo aos meninos de nosso tempo para que sejam jogadores de futebol? Pasmo diante da resposta dura e cruel. Dura porque é a realidade nua e crua e cruel porque revela um paradoxo mileriano (desculpem o neologismo, mas tomei o nome do inventor como preconizador do dilema). E por que paradoxo? Simples. Porque quando aprendíamos futebol nas várzeas gerávamos craques (Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, etc.), mas quando inventaram a escolinha (perdoem-me o esclarecimento: escola para pequenos e NÃO escola pequena) de futebol, aí os craques escassearam.

Por que as várzeas eram mais eficientes do que as escolinhas? Bem! Aqui vai algumas sugestões de resposta. Isso porque você pode acrescentar a sua, se quiser:

1 – Porque futebol não é somente talento natural, mas acima de tudo, é adaptação, improvisação e, muita dedicação;

2 – Porque nas várzeas as bolas eram improvisadas, quase nunca redondas, nem sempre quicavam, obrigando os garotos a serem realmente bons com os pés;

3 – Porque as várzeas, frequentemente, não eram superfícies planas com grama europeia, mas ondulações que fugiam qualquer pretensão de frequência, mais parecido com a leitura de um eletrocardiograma de um cardiopata;

4 – Porque as várzeas não concebiam apenas craques de futebol que visam a, apenas, jogar na Europa, no Oriente Médio e, agora na Ásia, par ganhar a sua fortuna. Elas produziam amantes do futebol que o incorporavam como parte dos seus prazeres da vida e, lhes produzia uma alegria sem comparações. Haja vista que a maioria dos craques do passado acabaram pobres;

Enfim, as várzeas eram sim mais eficientes para produzir nossos craques. As escolinhas de futebol são como as escolas públicas e, a maioria das escolas particulares do nosso país: ineficientes, ineficazes e, incompetentes para sua função precípua, E-N-S-I-N-A-R. E quem disse que futebol se ensina? Os seus fundamentos sim, mas na sua maior parte o futebol é feito de improvisação e criatividade. Como dizem alguns: “é arte, é talento, é show”. Sem o amor, o prazer e a alegria, que as várzeas proporcionavam, o futebol é simplesmente uma profissão que as crianças escolhem na vida e desaprendem na escolinha. Por tudo isso, sem saudosismo lamentante, quero fazer uma pergunta: O que fizeram dos nossos campos de várzea?

 

 

Meu pé de Ipê Amarelo

 

O que faz um vencedor não é apenas o talento natural de uma pessoa. Já ouvi alguns atletas dizerem que a vitória é feita de 10% de inspiração e de 90% de transpiração. O que quer dizer que o talento sem trabalho não é nada, pois com dez por cento de alguma coisa você não chega a lugar algum. Portanto, as vitórias, em qualquer área da vida, são feitas de muito esforço, dedicação, insistência, perseverança e persistência.

Quando viajo para o interior do estado do Rio de Janeiro, na época do inverno, me deparo com um cenário natural revestido de um paradoxo intrigante: ao mesmo tempo que vejo a paisagem deslumbrante das montanhas e vales, característicos da região, também fico desolado com a vegetação excessivamente seca, dando a impressão, muitas vezes que estou no sertão da caatinga nordestina, por onde passei por duas vezes na minha vida, mas fui eternamente marcado por aquela contemplação. Uma coisa, no entanto saltam aos meus olhos e, aos olhos de qualquer pessoa que passe por lá: a exuberância e a imponência do Ipê amarelo. Uma simples e escarpada árvore, de estatura média, longa e com uma copa humilde, com pouca extensão. Mas quando o Ipê amarelo resolve florescer, e faz isso no período de julho e setembro, fase final do inverno e, período mais seco da estação, impõe-se como um galã da estação fria e sombria. Espalha-se pelos acidentes naturais da região como se nada o fosse deter, nem o frio, nem a seca, nem o fogo… Sua cor de um amarelo ímpar nessas paragens o faz ofuscar todas as outras belezas da região. E, como que… num triunfo final de uma batalha campal, ergue-se o Ipê amarelo como o guerreiro triunfante que venceu sem nem mesmo sujar a armadura que jamais pretendeu camuflar.

Assim como tudo tem sua função a existência do Ipê amarelo, com certeza, também a tem. Apesar de sua aparência soberba e narcísica as flores do Ipê amarelo servem de alimento para as abelhas e beija-flores que discretamente se achegam à sua beleza ímpar o sorvem o seu néctar precioso. Outros animais também se aproveitam do imponente, mas generoso grandalhão e, levam pelo caminho por onde passam o pólen que mesmo sem o saber já o fertilizaram nas suas andanças.

Penso no Ipê Amarelo como uma inspiração para nossa vida, pois é nos momentos mais difíceis, de seca, de aridez que precisamos florescer. Enquanto todas as outras plantas cedem à baixa umidade do inverno o Ipê amarelo se levanta como que para dizer: “não desistam, falta pouco para sentirmos as chuvas da primavera e as torrentes do verão chegarem, portanto venham! fiquem comigo e chegaremos lá!”. Quê inspiração nos dá esse tal Ipê Amarelo!

Pois é, meus amigos. Muitas vezes o inverno chega a nossa vida assim, sorrateiramente, trazendo aquela temperatura amena que nos alivia do intenso calor veraneio. Porém traz a cessação das águas, aridez da terra a falta de alimentos… É assim que nos sentimos quanto enfrentamos lutas e problemas que, parecem que não vão acabar nunca. Às vezes se manifestam como uma perda de uma pessoa querida, ou como uma frustração nos negócios, no fim de um relacionamento de anos, ou quem sabe, até mesmo por uma tristeza profunda, sem razão aparente. São essas coisas, que muitas vezes chegam assim, de repente e, nos sacodem, nos derrubam, nos lançam no deserto, num terreno de sequidão e solidão.

Mas a lição do Ipê amarelo nos mostra que tudo isso pode ser superado e, com bastante luta e disposição, podemos florescer, mesmo em um meio em que tudo pareça contrário. Qual é o segredo do Ipê amarelo? Será que há nele algo diferente das outras árvores? Acredito que nem tanto, mas destaco as suas raízes profundas que buscam água nos veios profundos do lençol freático. Mas, as outras árvores também têm e, nem por isso se comparam. O outro fator é que o Ipê decide florescer, mesmo quando todas as outras árvores descartam as suas folhas e as suas flores. Dessa forma, nós também devemos decidir florescer mesmo nos momentos difíceis. Se você decide ser um derrotado, o será. Se se entrega às mazelas que a vida nos reserva então perderá. Todavia se você decidir que a aridez da vida não o derrotará e, fincar as suas raízes mais fundo nos seus valores e, naquilo que você tem de mais importante, então será como Ipê amarelo que mesmo na sequidão se mostra como um vencedor.

Existem outros Ipês: o vermelho, o roxo, o rosa, o branco… Talvez muitos outros que nem vemos, mas nenhum como o Ipê amarelo. Desse eu sou fã e, vou me espelhar sempre nele: o meu preferido, o meu inspirador, o meu sempre presente, imponente, imperador absoluta do cerrado e das serras. Obrigado por sua existência, meu querido pé de Ipê amarelo.